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TJ investe no poder dos grupos reflexivos com homens autores de violência em SC

TJ investe no poder dos grupos reflexivos com homens autores de violência em SC
Foto: TJSC

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) e da Academia Judicial, promoveu nesta semana, entre os dias 3 e 5 de novembro, em Florianópolis, a quinta edição do Curso Prático para Facilitadores de Grupos Reflexivos para Homens Autores de Violência contra Mulheres.

O evento reuniu 60 profissionais do sul do Estado, do Vale do Itajaí e da Grande Florianópolis, com 20 horas de duração, em uma programação que combinou aulas teóricas, oficinas e simulações de situações enfrentadas pelos facilitadores. A estratégia foi capacitá-los para trabalhar com os homens autores de violência, estimular a reflexão e propor mudanças de comportamento.

Em Santa Catarina, 48 mulheres morreram neste ano em casos investigados como possíveis feminicídios — uma média superior a uma morte por semana. O curso desta semana busca enfrentar essa realidade e prevenir a ocorrência de novos crimes desta natureza, cometidos praticamente em todas as regiões do Estado.

Enxugar gelo

O pioneirismo de Santa Catarina na área dos grupos reflexivos tem raízes em uma experiência iniciada há mais de duas décadas. Blumenau mantém um dos grupos mais antigos do país, em funcionamento contínuo desde 2005. Em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o TJSC também produziu uma trilogia de estudos sobre o tema, considerada o mais completo mapeamento nacional e que serviu de base para recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Essa trajetória levou representantes do Judiciário catarinense à elaboração de uma nova resolução do CNJ, que estabelecerá diretrizes nacionais para os grupos reflexivos. A juíza Naiara Brancher, titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da comarca da Capital e cooperadora da Cevid, atuou como coordenadora adjunta do grupo de trabalho responsável pelo documento, ao lado da servidora do TJSC Michelle Hugill. A publicação está prevista para este ano.

Ao destacar o contraste entre o pioneirismo catarinense e os elevados índices de violência contra as mulheres no Estado, Naiara defendeu a continuidade das ações de prevenção. “Eu concordo que a gente enxuga gelo há muito tempo, só que é ou enxugar gelo ou morrer afogada”, afirmou.

O professor e pesquisador Adriano Beiras, da UFSC, ressalta que os grupos reflexivos oferecem aos homens autores de violência um espaço para discutir masculinidade, relações afetivas, gestão das emoções e formas de resolver conflitos sem recorrer à violência. Os participantes chegam aos grupos por encaminhamento judicial, inclusive no âmbito das medidas protetivas. Os encontros, geralmente semanais, reúnem de 15 a 20 homens, sob a orientação de dois facilitadores, ao longo de 12 sessões.

Para o professor, os efeitos desse trabalho não se restringem aos participantes. “É também uma medida psicossocial que vai para além da judicialização e da penalização, e que pensa em um amadurecimento social das pessoas e das relações”, afirma.

Expansão

Há 64 grupos reflexivos em Santa Catarina, distribuídos por 48 comarcas, conforme dados de outubro de 2026. Em 2023, eram 43 – um crescimento de 48,8% em três anos. Somente em 2025, pelo menos 1.391 homens participaram da iniciativa.

O psicólogo João Batista Rios Machado, servidor da Cevid, acredita que os encontros podem transformar padrões culturais e comportamentos. “Às vezes, uma conversa pode fazer esse homem refletir sobre seu comportamento e levar essa reflexão para a vida”, afirma. A psicóloga e professora Ana Carolina Maurício, uma das formadoras do curso, explica que a metodologia dos grupos reflexivos exige uma postura que não se limite ao julgamento ou à punição dos participantes. “A proposta é que a gente consiga refletir e responsabilizar, sem punir o outro e sem se punir também”, explica. Para ela, a capacitação contínua dos facilitadores é fundamental para manter essa abordagem e fortalecer o trabalho conjunto entre o Judiciário, a saúde, a educação e a assistência social.

Davi Thiago Cardoso, psicólogo e professor, também formador do curso, destaca que o enfrentamento da violência contra as mulheres exige estratégias que não se limitem à punição. “A gente quer uma sociedade em que a punição seja apenas uma das estratégias, não a estratégia principal”, afirma.

A abertura do evento foi conduzida pela desembargadora Hildemar Meneguzzi de Carvalho, coordenadora da Cevid. “O enfrentamento da violência contra as mulheres não pode se limitar à punição. Precisamos atuar também sobre as causas do problema, estimular os autores de violência a refletir sobre seus comportamentos e contribuir para mudanças nas relações entre homens e mulheres. Os grupos reflexivos são uma ferramenta fundamental nesse processo”, destacou.

Fonte: TJSC

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