IV Seminário de Contas Regionais e Bioeconomia da Amazônia reúne em Santarém quatro trilhas de debate
Em três dias de programação houve discussões sobre políticas públicas, mudanças climáticas, governança das cadeias da sociobioeconomia, pesquisas e trocas de conhecimento
O IV Seminário de Contas Regionais e Bioeconomia da Amazônia, promovido pela Rede Pará de Contas Regionais e Bioeconomia, reuniu pesquisadores, estudantes e representantes de instituições na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, no Oeste do Pará. A programação, que ocorreu de 4 a 6 de novembro, enfatizou a bioeconomia da sociobiodiversidade amazônica, as cadeias produtivas, as políticas públicas e os impactos das mudanças climáticas. A Rede é formada pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), Ufopa, Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), sediada em Marabá.
Na quarta-feira (4) houve atividades internas da Rede, de forma simultânea, no Auditório Principal – Laranjão, na Ufopa Tapajós. O primeiro dia foi reservado à apresentação dos resultados da Rede em quatro trilhas de discussões:
Contas Alfa e Indicadores da Bioeconomia e Mudanças Climáticas e Políticas Públicas
A Trilha 1 apresentou os indicadores da Economia da Sociobiodiversidade do Pará (EcoSocioBio-PA) e o diagnóstico de sua indústria, construídos a partir das Contas Sociais Ascendentes Alfa (CSα), metodologia desenvolvida por Francisco de Assis Costa no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea/UFPA) e registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) em 2002, que agora migra de Visual Basic para Python. O objetivo é alimentar a plataforma de dados do Centro Integrado de Conhecimento em Bioeconomia (CIC-Bio), com séries de 1995 a 2023, que combinam Pesquisa Agrícola Municipal, Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura e Censo Agropecuário.
Entre os resultados apresentados, destaca-se o crescimento da indústria da EcoSocioBio-PA em 2,4% ao ano, entre 1995 e 2023, acima dos 2,2% do total. A indústria subiu de 28% do Produto Interno Bruto Alfa (PIBα), em 2004, para 34% em 2023. Com um Indicador de Retenção Local em torno de 1,4, o que significa que a renda retida localmente é 40% maior que a retida nos setores extralocais. Além disso, concluiu-se que a produtividade monetária média do trabalho caiu de R$ 100 mil para R$ 60 mil por trabalhador, ao ano, em 2023, e na indústria chegou a R$ 332 mil.
Mudanças Climáticas e Políticas Públicas
Os resultados da Trilha 2 foram analisados a partir de uma pergunta relevante ao debate: como as mudanças climáticas afetam a base produtiva e social da bioeconomia nos territórios paraenses? A base analisada reuniu 337 famílias, além de grupos focais e atividades de campo em comunidades rurais. A conclusão apontou que produtos da bioeconomia contribuem para a renda de 111 famílias, cerca de 33%.
Os dados mostram que 72% das 111 famílias entrevistadas consideram as mudanças climáticas uma ameaça, com relatos de aumento da temperatura (108) e perdas de renda (83). Das 192 famílias produtoras de açaí, 94 utilizam cultivo ou sistema misto, e 89 praticam apenas extrativismo. Entre as primeiras, 73 foram afetadas por eventos climáticos, 63 enfrentaram secas prolongadas e 73 registraram perdas de renda.
Em Cametá (município do Nordeste paraense), 35 famílias têm o açaí como principal fonte de renda, das quais 80% relataram perdas de renda e 77,1% se consideram pouco ou nada preparadas para enfrentar as mudanças climáticas. Em Marabá, oito famílias destacaram a importância da castanha-do-pará na sua renda, e perceberam aumento da temperatura, redução das chuvas e secas prolongadas, sendo que 50% sofreram perdas de renda nos últimos cinco anos devido a eventos climáticos.
Os próximos passos da Rede são entregar devolutivas às comunidades pesquisadas, mais dois campos de pesquisa articulados para 2026 e a previsão de conferências climáticas municipais, para aproximar evidências, comunidades e governos locais.
Governança das Cadeias da Sociobiodiversidade
A trilha 3 reuniu três estudos sobre como as cadeias da sociobiodiversidade se organizam, quem financia a coleta e onde o valor fica: no Baixo Amazonas, com base no relatório anual de novembro de 2026, do Projeto SBDiversidade Contas Regionais, a pesquisa da Ufopa que incluiu 43 entrevistas com compradores, atacadistas, associações e empresas, e 28 com feirantes, mostrou que, em 2024, a castanha-do-pará somou 9.172,8 toneladas, cerca de 30% acima das 7.034 toneladas da Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), e o cumaru 267,04 toneladas de amêndoa seca, cerca de 80% acima das 148 toneladas da PEVS.
Com 76,84% da castanha processada na região, e 78,27% da beneficiada destinada ao exterior, é possível descrever três arranjos que incluem o aviamento, unem crédito e comercialização em um único acordo pago em produto, em que o coletor familiar adiciona R$ 4,18 dos R$ 19,82 por quilo da castanha, 21,09% do valor adicionado. Quanto ao cumaru, o coletor adiciona R$ 91,50 dos R$ 147,39 por quilo, cerca de 62,08%.
Em 2026, o preço médio da castanha ficou em R$ 325,74 por saca de 60 kg, com queda de R$ 476,00 na primeira coleta para cerca de R$ 268,00 entre abril e maio. Já o cumaru subiu 73,42% entre junho e setembro.
Quanto à análise das Notas Fiscais Eletrônicas do Pará de 2021 para cacau, castanha (com e sem casca) e outras frutas, a pesquisa apontou a soma de R$ 3.584,27 em valores fiscais, 96,5% deles em atividades do interior. Com o atacado do cacau de Altamira concentrando saídas de R$ 534,6 milhões, 93,3% para o restante do Brasil – e cerca de 93% desse fluxo para a Bahia -, e a indústria respondendo por 65,75% das transações de origem da castanha e 58,02% do valor comercializado destinado à exportação, com a ressalva de que valores fiscais não equivalem à produção nem ao valor adicionado.
A trilha sobre governança do cacau visou caracterizar atores e canais de comercialização às margens medidas pelas Contas Alfa e às conexões com o Brasil, e o mundo, a partir do Censo Agropecuário de 2006 e 2017, do Cadastro Ambiental Rural, da PAM, do Regic 2018 e do Comex Stat.
Matriz de Insumo-Produto da Bioeconomia
Esta trilha abordou a Tabela de Recursos e Usos (TRU) do Pará para 2021, construída em compatibilidade com o Sistema de Contas Regionais, com base de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Fapespa. A tabela com 82 produtos e 31 atividades dentro das atividades agropecuárias, separa a bioeconomia da sociobiodiversidade da não bioeconomia. Vinte produtos ou grupos de produtos foram classificados como bioeconomia, entre eles açaí, mandioca, cacau, cupuaçu, mel, pesca e aquicultura.
Os valores de chegada do Sistema de Contas Regionais foram distribuídos pela participação de estabelecimentos familiares e não familiares no Censo Agropecuário, e a Rede comparou o efeito de usar a estrutura de 2006 e a de 2017.
Os resultados do setor agropecuário paraense, em 2021, apontam que o valor bruto da produção (VPB) da Bioeconomia foi de R$ 14.893 milhões, com o consumo intermediário (CI) em R$ 5.163 milhões, e o valor adicionado em R$ 9.730 milhões. A atividade de bioeconomia responde por 44,7% do valor bruto da produção, e por 40,0% do valor adicionado do setor.
Nesta trilha, também houve a apresentação do organograma da estimação de uma Tabela de Recursos e Usos (TRU estadual) com abertura bioeconômica, em oito etapas e seis entregas. O percurso começa com a exposição da metodologia atual e de sua memória de cálculo, compara procedimentos descendentes e ascendentes, e mantém um registro único de questões metodológicas atualizado após cada atividade. A última entrega é uma agenda de aprimoramento, com estudo de extensões físicas e de serviços ambientais.
Quatro dimensões
A Rede Pará de Contas Regionais e Bioeconomia examina a bioeconomia paraense em quatro dimensões: a econômica, medida pela Tabela de Recursos e Usos e pelas Contas Alfa; os fluxos econômicos, lidos nas notas fiscais; a base territorial e institucional das cadeias, e as mudanças climáticas e a adaptação das famílias.
Atyliana Dias, diretora de Estatística, Tecnologia e Gestão de Informação (DETGI) da Fapespa, destacou que “o seminário é uma oportunidade muito importante para compartilhar conhecimentos e mostrar o quanto a bioeconomia da sociobiodiversidade é importante para o Pará e está, literalmente, enraizada no nosso estado”.
“Mais do que apresentar dados e pesquisas, buscamos compreender a realidade das comunidades, os desafios que enfrentam e como esses estudos podem contribuir para a construção de políticas públicas que valorizem a produção local, gerem renda e promovam um desenvolvimento mais sustentável para nossa região. Além disso, também nos trouxe dados que demonstram nossa realidade, das mudanças climáticas sentidas por toda população paraense. E, através de diagnóstico, de pesquisas primárias, demonstram e motivam a criar e potencializar políticas públicas que ajudem a combater, cada vez mais, o desmatamento, a destruição do nosso bioma, e conservar a floresta em pé, cuidando das populações que vivem nessas áreas e se sustentam do que plantam, cultivam e valorizam a Bioeconomia da sociobiodiversidade”, explicou a diretora da Fapespa.
Comércio baseado na confiança
A programação da quinta-feira (5) contou com a Feira da Agricultura Familiar da Ufopa, seguida de debates sobre sociobiodiversidade, a apresentação do Relatório da Rede Pará de Contas Regionais e Bioeconomia e a discussão sobre a castanha-do-pará e o comércio baseado na confiança, reunindo pesquisadores, representantes de instituições e organizações de produtores.
Nesta sexta-feira (06), a programação abordou a contribuição da análise econômica para a bioeconomia, com destaque para a Matriz Insumo-Produto, além dos desafios relacionados às mudanças e à adaptação climática na Amazônia, com a participação de pesquisadores da Ufopa, UFPA, Unifesspa, UFBA (Universidade Federal da Bahia), WRI Brasil e outras instituições.
Para o professor Giliard Silva, “neste evento, em particular, nós temos um conjunto de resultados que tornam mais fácil a identificação da relevância da bioeconomia da sociobiodiversidade amazônica para a própria realidade paraense. Justamente, porque nós conseguimos ter mais clareza da identificação das cadeias produtivas de alguns produtos. Isso utilizando registros fiscais como referência. A gente consegue ter uma aproximação do tamanho do valor adicionado da bioeconomia paraense, com a referência 2021”.
Segundo ele, “o evento tem servido primeiro para celebrar a relevância da bioeconomia, a relevância das parcerias entre universidade e governo do estado, por meio da Fapespa, e a colocar como expectativas de futuro que estas parcerias permaneçam, porque assim a gente tem maior capacidade de identificar essa atividade econômica, que é invisibilizada, mas que é tão relevante do ponto de vista econômico, social e cultural, como é a bioeconomia da sociobiodiversidade na Amazônia”.
O seminário foi realizado pela Fapespa, Projeto SBDiversidade Contas Regionais, Ufopa e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com apoio do LaBiCon Amazônia, Laboratório de Contas Regionais da Amazônia (Lacam) e do Projeto de Políticas Públicas de Mitigação e Adaptação Climática (PPMAC).
Fonte: Agência Pará






